segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Inútil fugir, inútil restistir, inútil tudo.







>> Guimarães Rosa

Ao Amor Antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

>> C.D.A

terça-feira, 10 de novembro de 2009

"Corre e diz a ela que eu entrego os pontos." >> Chico Buarque

Mãos atadas e olhos cegos
Não nego – ardo só de pensar.
As unhas que arranham a pele
A mordida que marca a carne
Que essa dor nunca me falte
E que o beijo sele mas nunca cale.
Impropérios, indecência
Mistério, imprudência
O carrasco do desejo
Nunca pede licença
Pra me executar.
Feliz condenada
Nem sempre comportada
Quando bem acompanhada.
Intensa devassidão
Ilimitada vastidão
Dor e luxúria
Variedade e fartura
Não peço a boca
Não meço a força
Onde a razão não tem espaço
E esse texto, um ínfimo pedaço
Da minha loucura.

>> Raquel Medeiros

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Um pouquinho de Shakespeare...

"Quando me tratas mau e, desprezado,
Sinto que o meu valor vês com desdém,
Lutando contra mim, fico a teu lado
E, inda perjuro, provo que és um bem.
Conhecendo melhor meus próprios erros,
A te apoiar te ponho a par da história
De ocultas faltas, onde estou enfermo;
Então, ao me perder, tens toda a glória.
Mas lucro também tiro desse ofício:
Curvando sobre ti amor tamanho,
Mal que me faço me traz benefício,
Pois o que ganhas duas vezes ganho.
Assim é o meu amor e a ti o reporto:
Por ti todas as culpas eu suporto."

Saudade...

Ainda sinto seu cheiro, seu andar, seu riso pouco e ousado,
sua mão, seu ar que me sufoca,
sua gargalhada que me devora, seu beijo doce.
Esse murmurar que me arrepia, braços, pernas, que me contagiam.
Preciso de um antídoto. Preciso de você.

****

Acho que nada poderia ter sido diferente. Tinha que ser daquele jeito, exatamente como passou. Exitações, bilhetes, todos com duvidas mais ninguém ousava perguntar, era mais que nítido e ainda tentávamos disfarçar.
Acordava com uma impressão deliciosa de que iria ver o mar.

****

domingo, 1 de novembro de 2009

Teu até a morte!

"Soberana e alta Senhora!


O ferido do gume da ausência, e chagado nas teias do coração, dulcíssima Dulcineia de Toboso, te envia saudar, que a ele lhe falta.

Se a tua formosura me despreza, se o teu valor me não vale, se os teus desdéns se apuram com a minha firmeza, não obstante ser eu muito sofrido, mal poderei com estes pesares, que, alem de muito graves, já vão durando em demasia.

O meu bom escudeiro Sancho te dará inteira relação, ó minha bela ingrata, amada inimiga minha, do modo como eu fico por teu respeito. Se te parecer acudir-me, teu sou; e senão faz o que mais te aprouver, pois em acabar a minha vida terei satisfeito á tua crueldade e o meu desejo.

>> O cavaleiro da triste figura <<

sábado, 24 de outubro de 2009

Não se pode ter paz evitando a vida...

"Agora vou embrulhar minha angústia
dentro do meu lenço. Vou amassá-la
numa bola apertada. Vou levar minha
angústia e depositá-la nas raízes sob
as faias. Vou examiná-la, pegá-la
entre meus dedos."

Virginia Woolf
In:"As Ondas"

"Devemos modelar as nossas palavras até se tornarem
o mais fino invólucro dos nossos pensamentos.
Os pensamentos são divinos."

Virginia Woolf
In:"Orlando"

"E a sala tinha suas paixões e invejas e raivas e mágoas
a sobrepujá-la e encobri-la, como um ser humano [...]
Seu modo mais profundo de ser é que se queria captar
e converter em palavras, o modo que para o espírito
é o que é a respiração para o corpo, o que se chama
de felicidade ou infelicidade."

Virginia Woolf
In:"A dama no espelho"

"Horrível, pensava, adivinhar mover-se nela aquele monstro brutal! ouvir ramos estrelejando e sentir aqueles cascos nas profundezas dessa floresta cheia de folhas, a alma; nunca estar inteiramente alegre, nem inteiramente segura, pois a qualquer momento o animal podia estar movendo-se; ódio que, especialmente depois da sua doença, fazia-lhe sentir um doloroso arrepio na espinha; causava-lhe uma dor física, todo o prazer da beleza, da amaizade, do bem-estar, de sentir-se amada, de tornar a casa deliciosamente acolhedora, tudo vacilava e pendia, como se na verdade houvesse um monstro a roer as raízes, como se toda a panóplia do contentamento não fosse mais que amor-próprio! e aquele ódio!"


Virginia Woolf
In: Mrs. Dalloway




Última carta a Leonard Woolf

Querido,

Tenho certeza de que estou enlouquecendo de novo.
Sinto que não podemos passar por outra daquelas
terríveis fases. E desta vez não ficarei curada.
Começo a ouvir vozes, e não posso me concentrar.
Assim, estou fazendo o que me parece melhor.
Você me deu a maior felicidade possível. Não creio
que duas pessoas pudessem ser mais felizes até
chegar esta doença terrível. Não consigo mais lutar.
Sei que estou estragando a sua vida e que sem
mim você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Está
vendo, nem consigo mais escrever adequadamente.
Não consigo ler. O que quero dizer é que devo a você
toda a felicidade da minha vida. Você foi absolutamente
paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer isso —
e todo mundo sabe. Se alguém pudesse me salvar, teria
sido você. Perdi tudo, menos a certeza da sua bondade.
Não posso mais continuar estragando sua vida. Não creio
que duas pessoas tenham sido mais felizes do que nós fomos.

Virginia Woolf