quarta-feira, 15 de julho de 2009

Efeito Urano

“Cristiana, então, deixou-se seduzir por sua própria sedução, então refletida em Helena. Que tem uma voz dentro da cabeça que fica dizendo: eu preciso ser tudo para ter tudo. E deu á Cristiana um pouco do que ela de fato queria: doses de ousadia, pecado e culpa. Quase um jogo, uma brincadeira de pátio. Quase.”Cabe não cabe? Sim, e perfeitamente. E eu não tenho vergonha de dizer isso. Nem vergonha nem medo. O único medo que eu tinha era o de te perder, mas já notou como isso se aplica á gente? Uma coisa muito absurda para não dizer quase obscena. E sabe porque nós duas continuamos com isso? Porque ambas gostamos de nos mutilar. Talvez você inconscientemente, mas eu não. Eu só não carrego um canivete comigo e dou meus cortes porque eu não gosto de sangue e nem de cicatrizes. Pelos menos não dessas que ficam expostas na pele, dessas que qualquer um pode ver. Eu gosto mesmo é de provocar cortes internos. E de vez quando cutucar velhas feridas. E eu chego ao ápice do ridículo para me satisfazer, desviar, chame como quiser. È essa coisa minha meio sado-maso, essa dor emocional que eu aprecio. E deve ser por isso que meus amores, aqueles mais fodidos sempre foram os mais cruéis. E foi por isso que eu lhe disse que, se ainda não quase já a amava. Vê que ridícula? Não. Não porque eu lhe disse isso. Eu te amava mesmo naquele dia e estava desesperada pra te mostrar isso. A coisa patética da qual me refiro foi que eu lhe disse isso também por outro motivo. Não, não foi para receber um “Cara, eu também te amo”. Não. Eu disse por que tinha certeza de que você não retribuiria. Porque você não é louca de pedra como eu. E denote o “louca de pedra” como uma escrota drogada e suicida. Porque você é como você mesma disse, certinha. Não. Não limitada. Apenas correta, honesta consigo mesma e não uma junkie emocional, uma freak viciada em desprezo como eu. E eu tinha certeza que isso ia te assustar, que ia te afastar, que isso te levaria a pensar antes de falar. Vê como eu sou podre? Depois eu joguei aquela avalanche de sentimentos em você, não que eu não estivesse realmente sentindo tudo aquilo. È só que eu sou uma exagerada eu gosto de aumentar as coisas. E acredito mesmo que esteja crescendo só que depois não saberei mais o que fazer com tanto. Então fico perdida e como filha da puta covarde que sou eu fujo. E agora está tudo meio fodido pro meu lado. Porque pela primeira vez eu fui sendo o que sou até agora. E você sabe que “é difícil ser uma coisa que se esconde o tempo inteiro” e eu não fui. Mas eu sou uma lunática. Eu te liguei e como você não retornou logo pensei que “ela” enfim havia chegado. Consegui até ver você apagando o meu numero das chamadas recebidas e dizendo pra ela que fora engano. Você não sabe o quanto é horrível eu admitir isso aqui pra você. Oras, essas são minhas fraquezas e você não deveria saber delas. Você só devia saber sobre o que há de mais belo e emocionante em mim. Você não tem idéia o quanto é assustador saber que a qualquer momento eu vou receber uma mensagem tua me dizendo que ela chegou e que você já tem uma resposta, ou pior que ainda não sabe. E isso não tem nada a ver com a minha adrenalina em ser rejeitada. Isso não é vicio. Você não é meu vicio em tortura emocional. E por isso mesmo me assusta. Isso eu não sei definir, isso não se resolve com analise nem psicólogo. È mais ou menos como entrar no mar e ficar com medo de pisar no fundo dele saca?

E bem no meio dessa minha-maneira-estranha-de-tentar-não-pensar-mais-em-você, ás 23:30 horas (já no horário velho) você me liga com seis centavos de crédito, “mas tudo bem porque quando muda o horário as operadoras ficam loucas” e a gente tem tempo suficiente pra conversar. Suficiente pra eu ficar ouvindo esse seu sotaque do caralho (do caralho porque nem se eu quisesse eu não conseguiria mais te tirar de mim). Não depois do “Porque tipo assim” numa coisa meio gaúcha, meio paulista, nessa sua voz que é meio sono, meio deboche e que me encharca. Então nesse meio tempo, entre ouvir tua voz me dizendo que está com dor de garganta porque dormiu com a janela aberta, entre minha calcinha ficar molhada e eu pela primeira vez gostar da mudança e de todo trabalho que dá essa porra de mudança de horário. Nesse meio tempo cai a ligação e eu fico puta. Eu volto a estaca zero repetindo “liga merda, me liga”.

Fernanda Young

domingo, 5 de julho de 2009

Passagem das Horas

Trago dentro do meu coração, Como num cofre que se não pode fechar de cheio, Todos os lugares onde estive, Todos os portos a que cheguei, Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias, Ou de tombadilhos, sonhando, E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero. A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde, O coral das Maldivas em passagem cálida, Macau à uma hora da noite... Acordo de repente Yat-iô--ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô ... Ghi-... E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol Dar-es-Salaam (a saída é difícil)... Majunga, Nossi-Bé, verduras de Madagascar... Tempestades em torno ao Guardaful... E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada... E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo...

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei... Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos... Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti, Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu
infeliz.

A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me, Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge, Desta estrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso, Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas, Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada, Deste desassossego no fundo de todos os cálices, Desta angústia no fundo de todos os prazeres, Desta saciedade antecipada na asa de todas as chávenas, Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim. Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência, Consangüinidade com o mistério das coisas, choque Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos, Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido, Porque, de tão interessante que é a todos os momentos, A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger, A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas, E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos, Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs, E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso, Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços, É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas... Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro, Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca... Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?

Correram o bobo a chicote do palácio, sem razão, Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra. Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos. Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir... Tão decadente, tão decadente, tão decadente... Só estou bem quando ouço música, e nem então. Jardins do século dezoito antes de 89,

Onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?

Como um bálsamo que não consola senão pela idéia de que é um bálsamo, A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.

Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se. Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver. Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente. Estou no caminho de todos e esbarram comigo. Minha quinta na província, Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti. Assim fico, fico... Eu sou o que sempre quer partir, E fica sempre, fica sempre, fica sempre, Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...

Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito. Só humanitariamente é que se pode viver. Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos, Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver. Só assim, o noite, e eu nunca poderei ser assim!

Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo, Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri. Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos, E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse. Amei e odiei como toda gente, Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo, E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.

Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti. Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito, Mágoa externa na Terra, choro silencioso do Mundo. Mãe suave e antiga das emoções sem gesto, Irmã mais velha, virgem e triste, das idéias sem nexo, Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos, A direção constantemente abandonada do nosso destino, A nossa incerteza pagã sem alegria, A nossa fraqueza cristã sem fé, O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases, A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos, A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida...

Não sei sentir, não sei ser humano, conviver De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra. Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido, Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens, Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta, Unia razão para descansar, uma necessidade de me distrair, Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A UM AUSENTE

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.

Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aqui
escênciade viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste

Carlos Drummond