sábado, 25 de abril de 2009

Trecho


"Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
e fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me.
Poder rir, rir, rir despejadamente,
Rir como um copo entornado,
Absolutamente doido só por sentir,
Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,
Ferido na boca por morder coisas, com as unhas em sangue por me agarrar a coisas,
E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida."

Inutil



“Quanto a mim, o amor passou.
Eu só lhe peço que não faça como gente vulgar
E não me volte a cara quando passe por si
Nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor.
Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância,
Que se amaram um pouco quando meninos e, embora na vida adulta sigam outras afeições
E outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma,
A memória de seu amor antigo e inútil”.

Mensagem





Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou
Com uma carta na mão
Ante surpresa tão rude,
Nem sei como pude chegar ao portão
Lendo o envelope bonito,
O seu sobrescrito eu reconheci
A mesma caligrafia que me disse um dia:“Estou farto de ti”
Porém não tive coragem de abrir a mensagem
Porque, na incerteza, eu meditava
Dizia: “será de alegria, será de tristeza?”
Quanta verdade tristonha
Ou mentira risonha uma carta nos traz
E assim pensando, rasguei sua carta e queimei
Para não sofrer mais

Todas as cartas de amor são ridículas,
Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas
Também escrevi, no meu tempo, cartas de amor como as outras, ridículas
As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas
Quem me dera o tempo em que eu escrevia, sem dar por isso, cartas de amor ridículas
Afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas.

Resto de mim


Quanta coisa ainda por dizer
Do meu amor imenso por você
Quantas palavras que ficaram no ar
Suspensas pra sempre
Perdidas no mundo sem encontrar você
O susto foi grande
O medo passou
Agora, o vazio me ocupou
Queima meu corpo, rompe meus sonhos
Mas sei que não quero me enganar de novo
Você arrancou os frutos sadios
Você entornou meu coração
O inverno foi longo
As noites sem fim
Meu bem, meu bem
O que fez com o resto de mim
Procuro razões em seus olhos escusos
Só vejo a mentira escondidade no fundo
Você fez sangrar meu coração
Feriu a si mesmo
Pensando que não.

Quando talvez precisar de mim...

Terror de te amar, num sitio como tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo mente e nos separa.

**

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.
Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.
Há muitas coisas que eu quero ver.
Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra Em primavera feroz pricipitado.

**

Para ser Grande

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Ser todo em cada coisa.
Põe quanto és.
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive.

Eterno em mim

"Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer.
Amar não acaba..
É como se o mundo estivesse a minha espera.
E eu vou ao encontro do que me espera."